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Transferência entre contas próprias conta como gasto

· 4 min de leitura

R$ 151.079 em 36 transferências viraram receita num banco e despesa no outro. O filtro procurava "transf", que nenhum banco grande usa.

Você move dinheiro da conta corrente para a conta de investimento, no mesmo banco, no mesmo CPF. Isso não é despesa, não é receita, é o mesmo real mudando de gaveta. Um relatório que soma as duas pontas como se fossem eventos diferentes está inflando os dois lados do seu extrato consolidado ao mesmo tempo.

Quando a conta corrente e a conta de investimento estão em bancos diferentes, o problema fica pior, porque cada banco só vê a própria metade do movimento.

O caso: R$ 151.079 em 36 transferências contadas duas vezes

Numa auditoria de um extrato consolidado real, 36 transferências somando R$ 151.079,00 foram contabilizadas como receita no banco de origem e como despesa no banco de destino. O mesmo dinheiro, uma única movimentação de fato, virava dois lançamentos com sinais opostos em duas contas diferentes da mesma pessoa.

Num segundo caso, dentro do mesmo levantamento, R$ 132.605,00 em 70 transferências voltavam a contar do zero a cada nova sincronização, porque o sistema não guardava memória de que aquele lançamento específico já tinha sido classificado antes.

O mecanismo: o filtro procurava a palavra "transf"

A causa raiz, uma vez isolada, era ingênua de um jeito revelador. A lógica que deveria identificar transferência entre contas próprias procurava a presença literal do trecho "transf" na descrição do lançamento.

O problema é que nenhum dos quatro maiores bancos do país escreve a descrição assim. Itaú, Bradesco, Banco do Brasil e Nubank cada um usa um padrão de texto diferente para descrever uma transferência (TED, DOC, PIX entre contas do mesmo titular), e nenhum deles bate de forma confiável com um filtro de palavra fixa em torno de "transf". O resultado é que a maior parte das transferências reais escapava do filtro, e cada uma virava um lançamento de receita de um lado, despesa do outro, do jeito mais simples e mais errado de contar.

Por que isso distorce o resultado do mês inteiro

Um relatório de gastos que conta transferência interna como despesa infla artificialmente o quanto você "gastou" no período, mesmo que nenhum real tenha saído do seu patrimônio total. O espelho, do lado da receita, infla artificialmente quanto você "ganhou", com o mesmo dinheiro contado como entrada nova.

Numa conta com movimentação recorrente entre corrente e investimento, por exemplo um aporte mensal automático, esse erro se repete todo mês, e o efeito acumulado ao longo de um ano pode superar em muito o tamanho de qualquer gasto real da categoria. É o tipo de distorção que não aparece como um pico estranho: aparece como um padrão mensal "normal", porque se repete sempre do mesmo jeito, e por isso passa despercebido por mais tempo do que um erro pontual.

O problema de dupla contagem tem um primo próximo: pagamento de fatura contando duas vezes, onde a mesma compra é contada no dia em que aconteceu e de novo no dia em que a fatura foi paga. A raiz é parecida: falta de memória entre lançamentos que na verdade são a mesma coisa vista de dois ângulos.

PIX entre contas do mesmo titular exige atenção extra

Transferência por PIX entre contas do mesmo titular tende a ser ainda mais difícil de identificar por texto do que TED ou DOC, porque a descrição que aparece no extrato depende de como cada banco nomeia a chave usada e o tipo de transação, sem um padrão comum entre instituições. Duas transferências idênticas, feitas no mesmo dia, para a mesma finalidade, podem aparecer com descrições completamente diferentes dependendo do banco de origem e do banco de destino.

Isso torna qualquer filtro baseado em palavra-chave, como o "transf" do caso descrito acima, ainda mais frágil quando aplicado a PIX, porque a variedade de textos possíveis é maior do que em TED ou DOC, que seguem um padrão mais antigo e mais uniforme entre bancos.

O valor exato ajuda mais que o texto

Uma forma mais confiável de identificar transferência entre contas próprias, na ausência de um texto padronizado, é cruzar valor e data entre as duas pontas: um débito de um valor específico numa conta, e um crédito do mesmo valor exato, na mesma data ou no dia seguinte, noutra conta do mesmo titular, é um indício forte de que se trata da mesma movimentação, mesmo que as descrições não tenham nenhuma palavra em comum. É essencialmente o mesmo princípio de conciliação usado para bater extrato contra planilha, aplicado agora para bater conta contra conta.

Como conferir na sua conta

  1. Liste as transferências que você faz entre contas próprias num mês típico: aporte para

investimento, reserva para outra conta, qualquer movimento entre contas do mesmo CPF.

  1. No relatório de gastos e receitas do aplicativo, procure essas transferências

especificamente pelo valor e pela data, não pela palavra "transferência" na descrição.

  1. Verifique se cada uma aparece só uma vez, como uma movimentação neutra, ou se aparece

como despesa de um lado e receita do outro.

  1. Se aparecer duplicada, exclua manualmente as duas pontas do cálculo de gasto e receita,

até que o aplicativo corrija a classificação.

  1. Repita a checagem depois de uma nova sincronização. Um lançamento que volta a contar

sozinho, sem que você tenha feito nada, indica que o sistema não está guardando memória da classificação anterior.

Depois de limpar as transferências, vale seguir o mesmo princípio para o extrato inteiro: como conciliar extrato com planilha explica o método em quatro passos para conferir qualquer número que o aplicativo mostrar.

O resumo em quatro linhas

dinheiro mudando de lugar.

lado e despesa do outro.

grandes bancos descreve a transferência assim.

sincronização, por falta de memória entre execuções.

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