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Cheque especial: os juros que o app não soma

· 4 min de leitura

Uma conta em −R$ 3.120,45 aparecia sem dívida a quitar, com R$ 3.081,02 em juros e tarifas na mesma tela, e uma taxa perto de 130% ao ano.

Uma conta corrente estava em −R$ 3.120,45. O painel de dívidas dessa mesma conta dizia "sem dívida a quitar". Na tela ao lado, um relatório de custos mostrava R$ 3.081,02 em juros e tarifas. Os dois números moravam no mesmo aplicativo e não se falavam.

O caso: −R$ 3.120,45 que não entravam no plano de quitação

O saldo negativo de −R$ 3.120,45 era cheque especial em uso: um limite de conta corrente que fica ligado automaticamente quando o saldo passa de zero para negativo, sem contrato novo, sem assinatura, sem aviso.

O que chamou atenção foi o contraste entre duas telas do mesmo produto:

telao que mostrava
plano de quitação de dívidas"sem dívida a quitar"
relatório de custos do períodoR$ 3.081,02 em juros e tarifas
taxa contratual do cheque especialpróxima de 130% ao ano

O cheque especial não aparecia como dívida a organizar, mas já estava custando quase R$ 3,1 mil em juros e tarifas no período analisado, a uma taxa que está entre as mais altas do crédito para pessoa física no país.

Por que o cheque especial escapa do radar

Empréstimos e financiamentos costumam ter contrato, parcela fixa e data de fim, então qualquer sistema de organização financeira os reconhece como dívida com facilidade. O cheque especial não tem nada disso: ele nasce no momento em que o saldo cruza o zero, e morre no momento em que o saldo volta a ficar positivo, sem nenhum evento formal no meio do caminho.

Um plano de quitação que olha só para produtos com contrato de empréstimo (cartão em atraso, financiamento, empréstimo pessoal) tende a não classificar o saldo negativo de conta corrente como algo a ser quitado, mesmo que ele esteja ali, rodando, e mesmo que a taxa dele costume ser mais alta do que a de boa parte dos empréstimos formais.

Essa mesma lacuna aparece em quem tenta entender o Custo Efetivo Total da própria conta: se o cheque especial nem é listado como dívida, o custo dele também não entra em nenhuma comparação.

Uma taxa que pesa em poucos dias

Uma taxa perto de 130% ao ano parece abstrata quando descrita assim, mas o efeito aparece rápido porque o cheque especial cobra por dia de saldo negativo, não por mês fechado. Ficar alguns dias no vermelho, mesmo com intenção de cobrir no início do mês seguinte, já gera juros proporcionais àquela taxa anual.

Vale um cuidado com o número: os R$ 3.081,02 são juros e tarifas do período inteiro, e não só o encargo do cheque especial. A conta que dá para afirmar é mais simples e mais útil: a 130% ao ano, o encargo dobra o valor devido em pouco menos de um ano de saldo negativo contínuo. Quem entra e sai do vermelho paga proporcionalmente aos dias, e é por isso que o custo aparece mesmo para quem "cobre no início do mês seguinte".

Cheque especial ao lado de outras dívidas caras

O cheque especial costuma disputar o topo da lista de taxa mais alta com o crédito rotativo do cartão de crédito, que aparece quando alguém marca a opção de pagamento mínimo numa fatura. As duas modalidades têm em comum o fato de nascerem sem contrato formal novo, cobrarem juros altos desde o primeiro dia, e serem pensadas pelo sistema financeiro como crédito emergencial de curtíssimo prazo, não como fonte de financiamento continuado.

A diferença prática é que o cheque especial cobra por dia de saldo negativo, enquanto o rotativo do cartão cobra sobre o saldo que ficou sem pagamento na fatura. Quando as duas coisas acontecem juntas, numa mesma conta, o custo total pode superar qualquer estimativa feita olhando as duas separadamente, porque os juros de uma não compensam nem reduzem os da outra.

Para quem identifica um saldo de cheque especial que se arrasta por vários meses seguidos, vale considerar se existe uma linha de crédito com taxa mais baixa disponível, como um empréstimo pessoal com desconto em folha ou consignado, para substituir a dívida cara por uma mais barata. Esse tipo de troca segue a mesma lógica de uma portabilidade de crédito, mesmo que o cheque especial em si não seja, tecnicamente, portado entre instituições da mesma forma que um empréstimo com contrato.

Como conferir na sua conta

  1. Abra o extrato da conta corrente e procure os dias em que o saldo ficou negativo no

último mês. Cada dia negativo é um dia de incidência de juros.

  1. Procure a linha "juros cheque especial" ou "encargos" no mesmo extrato. Some o valor de

todos os lançamentos com esse nome no período.

  1. Verifique se o seu plano de organização financeira, se você usa algum, lista o cheque

especial como dívida ativa. Se não listar, ele provavelmente está de fora do cálculo de prioridade de quitação.

  1. Compare a taxa anual do seu contrato de cheque especial (costuma estar disponível no

próprio app do banco, na seção de tarifas e taxas) com a taxa de qualquer outro crédito que você tenha em aberto.

  1. Se o cheque especial aparecer como o de maior taxa entre suas dívidas, ele é candidato a

prioridade de quitação, mesmo sem contrato formal e mesmo sem aparecer como "dívida" em telas de resumo.

O resumo em quatro linhas

dívida com contrato tendem a não listá-lo.

acumulava R$ 3.081,02 em juros e tarifas no mesmo período.

saldo negativo, não por mês fechado.

plano automático de organização de dívidas.

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